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Incêndio

Teu nome me atravessa como lâmina, fundo e fino, rasgando o silêncio que eu teimo em vestir. Há uma violência em te amar, um rasgar de veias, uma fome insaciável que grita no osso. Tu és o grito seco da navalha, o pulso em convulsão, o relâmpago que cega e queima. Eu corro entre teus braços como quem foge do incêndio, mas me prendo na fagulha e acendo outra vez. Amar-te é cuspir no espelho, é ferir-se de propósito, é cavar buracos no peito e encher com tua ausência. Tu me tens inteira, não como uma rosa mas como o espinho.

Brasil

O Brasil não cabe nas palavras, é um sentir, um vibrar, um cheiro de terra molhada após a tempestade de verão. É o grito que ecoa no coração das matas, o som do mar que abraça uma costa infinita, promessas feitas em areia dourada. Há uma alma que dança nos ritmos do seu povo, nos passos que cruzam as ruas, nas vozes que cantam o amanhã. Mas o Brasil é também silêncio, é mistério em suas serras, um céu que se veste de estrelas como quem guarda segredos. É um país que ama demais, que sofre com o mesmo fervor. Uma pátria que insiste em sonhar mesmo quando o mundo a desafia. Brasil, pedaço de vida, terra que pulsa sob nossos pés. Tão amado, tão sofrido, tão eterno em sua grandeza.

Às Mulheres Negras

Há em ti uma força que não se explica. Algo que não cabe no olhar alheio, nem no nome que ousam te dar. És o que és, e isso basta para fazer tremer os alicerces do mundo. Tua vitória não precisa de plateia. Ela é íntima, como um sussurro, como o vento que modela as pedras sem que ninguém perceba. És feita de uma matéria antiga, um mistério que atravessa o tempo, que vem de vozes caladas e de mãos que ergueram sonhos no impossível. Cada passo teu é revolução. Não por querer mudar o mundo, mas porque, ao existir, tu o recrias. És guerreira, sim, mas não por lutar. Por resistir em silêncio, por transformar o cotidiano em poesia, e a dor, em uma beleza só tua. O que te move não é a vitória, mas o pulsar da vida em tua pele. És capaz porque és. E isso, ainda que calado, é a mais alta forma de gritar.

Mulher

Não sou costela, sou vértebra, coluna que sustenta tempestades. Andei descalça por ruas de ferro, ouvi sussurros que tentaram me moldar, mas meus pés marcaram o chão, meus passos quebraram o molde. Carrego na pele o grito das minhas, vozes abafadas por véus invisíveis, mas agora, o véu queima. Minha palavra é lâmina, corta o hábito, refaz o mundo. Não sou promessa, sou a ruptura, a pausa que reescreve a pauta. Se digo que vou, vou inteira. Se fico, permaneço densa. Não espero aplausos, espero queimar pontes antigas, e ver no horizonte a dança de corpos livres. Não me calo, sou o eco de todas que vieram antes, sou o silêncio que se rompe no ato de existir.

Saudade

Punhal cravado no peito, ferro frio, aço amargo. Cada segundo é uma lâmina roçando a carne viva da ausência. Grito rouco no vazio — quem ouve? Quem sente? A saudade rasga, mordaz, como bicho faminto, que dilacera o coração em busca do que não volta. São unhas sujas cavando lembranças, um relógio que sangra os minutos, uma tortura sem intervalo. E a solidão? Cão selvagem rondando a noite, com olhos de aço e dentes de escuridão. Não há fuga, não há abrigo, só o eco da tua falta correndo pelos labirintos do meu peito. E o punhal, sempre ali, brilhando, sorrindo, prometendo dor, só dor.

Sobreviver a Si Mesmo

É aceitar-se como mar em fúria e, ainda assim, mergulhar sem bóia. É caminhar pelas próprias ruínas, olhando as pedras e reconhecendo-se nelas. Sobreviver a si mesmo é naufragar e, no fundo escuro, encontrar um fio de luz que você nem sabia carregar. É suportar o peso da pele que te veste, do coração que pulsa desobediente. Não há manual, nem atalhos. A sobrevivência é feita de quedas e da arte de levantar-se, não para vencer, mas para olhar no espelho sem desviar os olhos. É perdoar a sombra que te segue, abraçá-la como parte do que és. É escrever com o caos as linhas tortas de um livro que só você pode ler. Sobreviver a si mesmo é viver no descompasso, no tropeço, na dúvida, na febre. E ainda assim, ter a audácia de acreditar que amanhã há de caber mais vida em ti.

Libertação

Arranque as amarras da pele, desfaça os nós da garganta. Queime as flores murchas no altar das culpas inúteis. Rompa o silêncio podre, grite até despedaçar o eco. Não se curve aos punhos de ferro que esmagam tua voz na calada. Enterre os rostos vazios, despreze os olhares mendigos. Lave-se do lodo dos outros, do peso que nunca foi teu. Corte a corda que te segura à beira, não tema a queda — temer é morrer antes de voar. Abra o peito, nu e ensanguentado, para o vento que arranca máscaras. Seja o que resta depois do caos. Seja cinza e renascimento. Seja, enfim, tua própria revolução.